Com esse texto inauguramos uma nova modalidade de post aqui no Blog da Geografia, que basicamente pretende apresentar de forma simples, sem grandes pretensões as principais ideias e conceitos publicados por pesquisadores e professores da área de geografia. Esperamos que este resumo possa ser útil na sua busca por conhecimento.

Apresentação da obra

Esta resenha trata da discussão do tópico intitulado Morte e vida da região escrito pelo geógrafo humano Rogerio Haesbaert. Embora este autor tenha escrito uma vasta literatura sobre território e região, esta resenha se propõe a discutir somente conceitos sobre região sob várias perspectivas de pensamento. Para isso, é necessário entender a região enquanto produto e produtora de processos que levam a diferenciação espacial.

Resumo

Em sua abordagem sobre a morte e vida da região, elaborado a partir de uma concepção das evoluções sofridas na história do pensamento geográfico, Haesbaert aborda os conceitos de região dialogando com importantes autores, tais como:  Vidal de la Blache, Griggs, Schaefer, Gramsci, entre outros.

Para Haesbaert a região pode ser construída a partir de diferentes sujeitos sociais, tais como: Estado, Empresas privadas, Grupos socioculturais, classe econômica e política. Estes atores irão agir no espaço ao criar processos de exclusão e precarização socioespacial.  Ainda há uma noção da construção e constituição da região a partir da configuração de identidades regionais. Todos estes aspectos demonstram a necessidade de analisar estes conceitos a partir de uma ótica vinda da geografia humanística. 

Em uma de suas primeiras falas, o autor cita às idas e vindas da região. Isso remete a uma noção de inconstância da própria caracterização e definição região, que está sujeita a ter diferentes abordagens de acordo com cada geógrafo. Os movimentos que marcam as mudanças da região de acordo com as diversas correntes de pensamento irão contribuir para o surgimento das expressões “morte da região” e “vida da região”. Como iremos ver na resenha, Haesbaert é resistente em afirmar, perante os discursos existentes, um possível fim da região.

Para discutir sobre a morte e vida ou valorização e desvalorização do conceito abordado, o texto apresenta inicialmente, três momentos que contribuíram para a morte da região, ou seja, para que tivesse surgido argumentos no sentido de questionar a existência da região.  O autor delimita estes três momentos, a saber: neopositivismo, marxismo e globalismo pós-moderno.

Na perspectiva neopositivista, os geógrafos quantitativos passaram a considerar a região tão somente como um instrumental metodológico. Passou-se a abordar a região apenas como tipos ou classes de área.  Trata-se de uma abordagem que favorece a adoção da região para fins de classificação de áreas. Porém, esta abordagem desconsidera as complexidades que envolvem a própria definição do que venha a ser uma região.

Uma das principais críticas de Haesbaert em relação a abordagem neopositivista da região foi a sobrevalorização da análise regional em detrimento da análise sistemática.  Neste sentido, a morte da região estaria ligada à sua ação tão simplesmente como um instrumental metodológico, permitindo assim, que pudesse ser reduzida a “tipos” ou “classes” de área. O autor ainda explica que ao tratar a região como classe de área ao utilizar fontes de dados estatísticos e matemáticos, os geógrafos neopositivista acabam por simplificar a riqueza de feições e a complexidade que envolve uma região geográfica. 

Já a morte e vida da região a partir de uma perspectiva marxista ganha contornos por meio da crítica à Geografia Regional clássica. Neste sentido, se por um lado a Geografia em bases neopositivista representou o primeiro momento da morte e ressureição da região, a Geografia crítica com base marxista representou a segunda morte da região, basicamente porque a abordagem capitalista pregava uma homogeneização do espaço.

Os estudiosos marxistas, baseados em uma lógica economicista, também alegaram que a morte da região iria ocorrer devido a uma homogeneização do espaço geográfico mundial, onde as diferenciações seriam reduzidas a um nível em que a região não poderia mais ser tratada a parti das suas especificidades locais.  Porém, cabe destacar que este argumento não recebeu muita atenção, e o reconhecimento das especificidades e identidades regionais volta a contribuir para uma “ressureição” da região.

Haesbaert ainda discute a influência do “globalismo pós-moderno” sobre a região, resumindo esta perspectiva como uma continuação das ideias marxistas. E comenta que muitos estudiosos acreditam que os processos que caracterizam a globalização estão produzindo uma sociedade em rede em detrimento de uma sociedade territorial e regionalizada. Essa abordagem acaba por não questionar o domínio da globalização. Destaca-se ainda que uma posição pós-estruturalista, no âmbito do debate regional associa a região ao lugar, contribuindo o aparecimento de novas discussões sobre a região.

Ao tratar da ressureição da região Haesbaert cita três momentos em que se torna importante analisar: o primeiro é o pós-estruturalismo, tanto num sentido mais materialista quanto mais idealista, a teoria da (estrutur)ação, aqui inspirada nas ideias de Anthony Giddens, e as novas correntes materialistas ligadas, sobretudo, a um marxismo bastante aberto e renovado.

Com relação ao debate da ressureição do conceito de região Haesbaert cita Gramsci ao afirmar que este autor é provavelmente um dos primeiros pensadores a contribuir para a conceituação de região a partir do conhecimento da efetiva organização e reprodução – material e simbólica – dos grupos sociais numa postura crítica, dentro do materialismo histórico (HAESBAERT, 2005 p.54).   Um dos estudos de Gramsci, que contribui para o reconhecimento da chamada “questão meridional” do sul da Itália, é citado por Haesbaert como uma das mais promissoras análises sobre a “ressurreição” da região no âmbito do pensamento marxista.

O resgate do conceito de região também é tratado frente aos processos de globalização e em diferentes abordagens dialéticas. As discussões se concentram basicamente nas formações regionais mais tradicionais e na construção de regiões mais inovadoras.  Para tratar a região sob o ponto de vista da globalização, Haesbaert discute o conceito de cidade região-global para tratar de áreas com níveis de conurbação avançado em que as áreas urbanizadas chegam a se confundir com a própria região. Também afirma que tanto a cidade-região quanto a cidade global serão organizadas em redes. Neste caso haveria uma hierarquia não entre cidades mais entre redes envolvendo cidades.  Assim, haveria uma tendência de estudiosos da região a analisarem as cidades não sob o ponto de vista da fronteira, mais das conexões existentes entre as cidades.   

As diversas idas e vindas do conceito de região, tratadas neste texto como as suas três “mortes” e/ou vidas, onde a ideia de região é discutida e analisada no sentido de torna-la mais completa, contribui para entender a sua importância diante das análises socioespaciais contemporâneas. Neste sentido, eis um texto que explora de forma detalhada, clara e consistente os fatores que contribuíram para uma discussão a cerca da “morte” e “vida” da região, representando uma importante fonte de consulta para alunos, pesquisadores e acadêmicos que queiram trabalhar os conceitos de região em análises espaciais.

HAESBAERT, R., “Morte e Vida da Região: antigos paradigmas e novas perspectivas da Geografia Regional,” Unbral Fronteiras, accessed March 30, 2021, http://unbral.nuvem.ufrgs.br/base/items/show/2915.

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