Introdução do resumo

O Livro A Formação do Espírito Científico é uma contribuição filosófica de Gaston Bachelard, e indispensável para a formação científica de pesquisadores e cientistas.  É interessante destacar que o início da segunda década do século XXI, o “espírito científico” se vê mais uma vez influenciado e atacado por um terrível onda anticientífica global, com graves interferências no Brasil governado por um governo de extrema direita apoiado por uma classe social que exige a volta dos costumes conservadores.

Esse contexto prova a sobrevivência de concepções pré-científicas e porque não dizer pseudocientíficas. Torna-se necessário, portanto, revisitar os esforços empreendidos na revisão dos fundamentos da ciência feita pelo filósofo francês Gaston Bachelard no final dos anos 1930. Destaca-se que neste período a Europa vivia em período de guerras e grande apologia ao obscurantismo e à violência.

Neste sentido, o livro de Bachelard traz à luz dos aspectos da psicologia humana, os fatores que constituiriam em obstáculos ao pensamento científico. Estes fatores precisariam ser identificados e analisados para poderem ser desenvolvidos métodos e ações que pudessem combater este obscurantismo científico.

Desenvolvimento

No início do texto o autor propõe uma cronologia de três períodos do pensamento, a saber: Período pré-científico, que vai desde a antiguidade até o século XVIII; Período científico desde o fim do século XVIII; Período que se inicia em 1905, caracterizado pela teoria da relatividade de Einstein. Estes três períodos constituiriam os três estágios da psique: o primeiro representaria uma alma ingênua, o segundo uma alma professoral, dogmática, e por último uma alma que se esforça para abstrair.

Além disso, destaca-se as falas referentes ao desejo pelo saber, que desperta o interesse pela necessidade de questionar e propor respostas para inquietações. Neste sentido, Bachelard realizará uma psicanálise com base neste interesse, tendo como um dos objetivos contestar o senso comum, e expor os delírios da imaginação que podem vir a constituir em um obstáculo para a formação de um espírito científico.

I – A noção de obstáculo epistemológico – Plano da obra

A ideia apresentada neste capítulo lança luz sobre a necessidade do questionamento e da destruição de conhecimentos anteriores para que novos conhecimentos sejam produzidos. Conhecimentos consolidados e pouco questionados também se torna um obstáculo para a construção do conhecimento. Conforme afirma o autor: um obstáculo epistemológico se incrusta no conhecimento não questionado. Porém, cabe ressaltar que os questionamentos precisam de argumentos válidos.

Bachelard também afirma que a ciência, em geral, se apõe à opinião. Neste caso, a opinião também pode considerada um obstáculo a ser enfrentado. Por tanto, os obstáculos epistemológicos, ou seja, a “falsa ciência”, são os motivos necessários para que Bachelard avance e se “emprenhe” nesta importante análise sobre o espirito científico.  

 II – O primeiro obstáculo: a experiência primeira

A experiência primeira constitui como o primeiro obstáculo porque se coloca antes da crítica. E como sabemos, a crítica é considerada o elemento integrante do espírito científico. O primeiro conhecimento concreto costuma ser emocional e por vezes, equivocado. Por isso, é preciso se afastar das primeiras impressões de um fato ou fenômeno.

O autor também afirma que as ficções científicas, viagens à Lua, invenção de gigantes e de monstros são, para o espírito científico, verdadeiras regressões infantis. Podem ser divertidas, mas nunca instrutivas. Rozestraten (2020) afirma que hoje deformações a priori de evidências dos sentidos, características desse primeiro obstáculo das evidências primeiras, podem ser reconhecíveis na chamada teoria do terraplanismo.

III – O conhecimento geral como obstáculo ao conhecimento científico

O segundo obstáculo descrito pelo autor seria as filosofias gerais, as afirmações fáceis e que em nada contribuem com a necessidade de confrontar as observações. Estas generalizações caracterizavam o pensamento pré-científico e buscavam a regularidade na natureza. Por sua vez, a ciência contemporânea se interessa pelo irregular, pelas perturbações e rupturas de paradigmas.

Bachelard cita os fenômenos da coagulação e da fermentação como exemplos dos equívocos cometidos pela generalização. No final do século XVII, entendia-se haver coagulação do leite, até coagulação da água.

Estes exemplos ajudam a entender que um conhecimento que carece de precisão não pode ser considerado um conhecimento científico. Neste sentido, destaca-se que para a ciência, um conhecimento geral é um conhecimento vago.

IV – Exemplo de obstáculo verbal: a esponja. Extensão abusiva das imagens usuais

Os exemplos da coagulação e da fermentação se tornam exemplos de generalizações imprecisas, deixando claro que estás ações causam prejuízos para uma aproximação científica. Porém, ainda é preciso considerar que alguns hábitos verbais também podem se constituir em obstáculos epistemológicos. Para exemplificar isso, o autor fala sobre o exemplo da esponja. 

Uma esponja nos mostra que um determinado material pode se ampliar com outro material. Trata-se de uma lição de plenitude heterogênea.  Destaca-se que a imagem tão clara pode, quando aplicada, ficar mais confusa e complicada.

Neste sentido, uma metáfora imediata pode permanecer na mente científica, de modo que pode se perpetuar a partir de uma imagem complementar, terminando em um reinado da imagem, ou seja, em uma imagem considerada irreal, verdadeira e irrefutável.

V – O conhecimento unitário e pragmático como obstáculo ao conhecimento científico

Para Bachelard a unidade, para o espírito pré-científico, não é só desejada como é considerada fácil de ser empregado. Neste sentido, essa unidade parece garantir a um discurso fácil, uma suposta universalidade científica, consistindo aí em um obstáculo ao conhecimento científico. Com isso, a verdade do todo deve ser a mesma verdade observada na parte, e vice-versa.

O autor ainda afirma que livros supostamente elementares não são mais do que livros falsos. E relembra a confusão que prevaleceu durante o período pré-científico. Faz-então, uma busca a necessidade de promover um pensamento científico crítico, ativo e pensado.

VI – O obstáculo substancialista

Há aqui uma intensa busca científica por “chaves”, isso é, por uma substância que poderia abrir outra. Assim, Bachelard adenta nos devaneios da imaginação, para em seguida critica-la como sendo um obstáculo para a formação do espírito científico.

Para o autor as falsas explicações substancialistas podem ser explicados pelo seguinte exemplo: a poeira gruda em um objetivo eletrificado; logo, a eletricidade é considerada dotada de uma cola.

Neste sentido, a imprecisão pré-científica crê que o saber, o conhecimento, poderia se apresentar como um acúmulo de saber parcialmente imprecisos, mas que juntos poderia dar contar de explicar e descrever de forma satisfatória as qualidades de uma determinada substância.

VII – Psicanálise do realista

Para o autor a análise psicológica do realista se constitui em entender como se dá a criação de uma convicção de não renunciar a uma experiência inquestionável.  E cita o exemplo das esmeraldas. O médico que consegue impor uma preparação de esmeralda para o paciente já sabe, com certa garantia, que o paciente conhece o valor comercial do produto. Além disso, a autoridade medica só reforça, para o paciente, a realidade e veracidade dos fatos.

Na idade pré-científica o acordo entre a mentalidade do paciente e do médico, poderia ser considerado um acordo fácil de acontecer.

Neste sentido, a crítica que o autor faz e que se constitui em um obstáculo para o pensamento científico, é que o valor da pedra preciosa representa algo com valor científico nesse delírio pré-científico, sem que haja qualquer questionamento. Aqui se faz uma complementação sobre o valor do nióbio neste devaneio pré-científico em um Brasil da segunda década do século XXI.

VIII – O obstáculo animista

Os obstáculos animistas se referem ao uso de atributos humanos para a explicação de certos fenômenos. E isso pode configurar um entrave para a aprendizagem. Ao atribuir vida e características humanas às substâncias como subsidio para explicar os fenômenos, o ser humano está fazendo uso de fetichismos amplamente utilizados nas ciências e pseudociências no século XVIII.

O autor ainda cita como exemplo o conceito de doença que é considerada como entidade clara e absoluta, e diz que:

A ferrugem é uma doença à qual o ferro está sujeito… O ímã perde sua virtude magnética quando é corroído pela ferrugem. Alguns recuperam parte de sua força quando lhe retiram a superfície atacada por essa doença (BACHELARD, 1996 p. 194).

IX – O mito da digestão

O protagonismo com que exerce as experiências humanas da vida, também traz uma valorização de outros termos como a alimentação. Neste caso, a Terra, e porque não o mundo, seria algo a ser devorado. A Terra também seria um vasto aparelho digestivo, pronta para devorar, digerir e excretar.

O mito da digestão, como outro obstáculo ao pensamento científico, deve ser entendido em razão da metafísica separação entre o sujeito que detém o aparelho digestivo e deve absorver o objeto mundo para conhecê-lo (BACHELARD, 1996, p. 220-250 apud RODRIGUES, 2012).

X – Libido e conhecimento objetivo

Inicialmente Bachelard afirma que o apetite é mais brutal, mas a libido é mais poderosa. O apetite é imediato; à libido, porém, correspondem os longos pensamentos, os projetos a longo prazo, a paciência. Um amante pode ser paciente como o sábio. O apetite se extingue no estômago saciado. A libido, mal acabou de ser satisfeita, reaparece. Ela quer a duração. Ela é a duração. A tudo o que dura em nós, direta ou indiretamente, liga-se a libido.

A ideia de libido como obstáculo irá se apresentar nas metáforas sexuais, onde as narrativas científicas estão repletas de menções sobre a natureza e os objetos como sendo elementos macho e fêmea, casamentos, fecundação, entre outros.

Rozestraten (2020) afirma que segundo o autor, para o espírito pré-científico obstruído pela libido, o interior das coisas é lugar de acalanto e gozo; demanda uma dedicação para a aproximação, o intercurso e depois o merecido relaxamento.

XI – Os obstáculos do conhecimento quantitativo

Para Bachelard o excesso de precisão, quando se refere ao reino da quantidade, geralmente corresponde ao excesso de pitoresco, no reino da qualidade. É neste sentido, que fala sobre a observação de Saint-Pierre sobre o voo das moscas e a possibilidade de mensuração do seu ângulo de voo (22,5 graus).

Porém, o autor não desqualifica a mensuração ou fala que medir não é preciso. Por isso, afirma que é preciso pensar para medir, não medir, para então pensar. Esta ideia de certa forma abre espaço para a crítica à matematização dos saberes.

Neste sentido, ao supostamente lidar com as coisas objetivas do mundo, a física poderia ser mais acessível, mais fácil, do que a Geometria, e Isaac Newton poderia ser então acusado de afastar a Física de seu lugar direto, natural, acessível e imediato, matematizando-a.

XII – Objetividade científica e psicanálise

Bachelard afirma que toda aproximação objetiva a um objeto é qualitativa. E que a construção de novos conhecimentos demanda uma ruptura com relação ao conhecimento sensível. Esta mudança de ruptura é expressa por meio de termos como: retificação, correção e ajuste.

O autor considera que é fácil perder o rigor e repetir palavras que nos afastam o rigor científico. Tendemos a caminhar sob caminhos reconfortantes. Por isso, se torna preciso inquietar e provocar a razão, pois sem isso se torna difícil a construção do conhecimento.

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Referências consultadas

BACHELARD, Gaston. A Formação do Espírito Científico: Contribuição para uma Psicanálise do Conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

RODRIGUES, Horácio Wanderlei; GRUBBA, Leilane Serratine. Bachelard e os obstáculos epistemológicos à pesquisa científica do direito. Sequência (Florianópolis), Florianópolis, n. 64, p. 307-334, julho 2012. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2177-70552012000100013&lng=en&nrm=iso

ROZESTRATEN, A. S. Considerações sobre “A formação do espírito científico” para o século XXI. Oculum Ensaios, v. 17, e204692, 2020. https://doi.org/10.24220/2318-0919v17e2020a4692

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