Paradigmas da geografia

Aos autores, Fábio Rodrigues da Costa e Márcio Mendes Rocha [1] procuram apresentar os principais paradigmas da ciência geográfica e as possibilidades para o século XXI. Trata-se de uma abordagem geral baseada na análise de livros e artigos científicos da área. Estes autores deixam claro que os apontamentos feitos durante o trabalho se constituem como uma análise introdutória, sendo necessário, para aqueles que procuram se aprofundar no tema, investigar com mais profundidade outras obras literárias referentes ao tema tratado. Neste sentido, a natureza do texto procura fornecer aos estudantes uma base sobre o processo de desenvolvimento da geografia.

O texto se divide em uma análise da geografia pré-científica, geografia científica (determinismo ambiental, possibilismo, método regional, nova geografia e geografia crítica) e a geografia global e as possibilidades para o século XXI. No terceiro momento o autor apresentar os conceitos de espaço, território, região, paisagem e lugar.

O período pré-científico da geografia corresponde aos conceitos geográficos produzidos sem a égide da sistematização e organização próprias do método científico. Trata-se de um conhecimento produzido na pré-história, onde os humanos registravam seus conhecimentos por meio de pinturas rupestres e formas rudimentares de representação gráfica para fins de localização e orientação. É possível citar, por exemplo, o conhecimento das correntes marinhas e dos ventos por parte dos polinésios. Destaca-se a contribuição dos gregos para estudos sobre a esfericidade da terra, processos de erosão e variações do clima, estudos sobre política e dinâmica fluvial.

Os povos árabes contribuirão com estudos sobre a compreensão do espaço, ajudando a ampliar o conhecimento produzido pelos gregos.  Os conhecimentos cartográficos se desenvolvem com a expansão territorial espanhola e portuguesa. Nesta época também se amplia os conhecimentos sobre a natureza e a elaboração de mapas. Porém, destaca-se que a produção do conhecimento geográfico se encontrava fragmentado, sendo organizado somente a partir do século XIX, na Alemanha. Destaca-se que a expansão territorial era um dos principais objetivos para o avanço dos estudos sobre o espaço.

No segundo momento, ao falar sobre a geografia científica aponta-se para a necessidade de conhecer as obras de Immanuel Kant sobre o espaço e o tempo, René Descartes e sua contribuição sobre o racionalismo, Charles Darwin e sua obra “A origem das Espécies”, Georg Hegel e sua análise sobre o idealismo, Karl Marx e sua análise sobre o materialismo histórico e o francês August Comte e as ideias sobre o positivismo. Sem o conhecimento destas obras seria difícil entender por completo como surgiu e se desenvolveu os paradigmas da geografia e a própria geografia enquanto ciência.

A organização da geografia como ciência se dá por meio das obras de Alexander von Humboldt e Karl Ritter. É na Alemanha que se desenvolve as condições teóricas que alicerçam os trabalhos destes teóricos. A contribuição de Humboldt ocorre por meio de suas viagens entre o século XVIII e início do XIX, onde buscou entender as diferenças e similaridade existentes entre as paisagens da superfície terrestre.

Percebe-se que suas análises ocorrem por meio da comparação. Outra contribuição foi a criação das isotermas (linhas que unem pontos com mesma temperatura média anual). Neste sentido, o nascimento da geografia oriunda das ciências naturais, tendo no positivismo, sistema que privilegia os conhecimentos que podem ser aplicados, as suas bases metodológicas. Além disso, o conhecimento geográfico também se desenvolver a partir do processo imperialista de expansão europeia entre os séculos XVIII e XIX. A produção geográfica desta época tinha como objetivo abastecer os governos de informações úteis para a legitimação do processo de expansão territorial e dominação social.

Paradigmas da geografia

O determinismo ambiental, organizado pelo geógrafo alemão Friedrich Ratzel, é considerado a primeira corrente do pensamento geográfico a caracterizar a ciência geográfica no século XIX. As ideias propostas tinham como objetivo justificar o processo de expansão europeia em outros continentes. O darwinismo social, ideia que pregava a existência de uma hierarquia entre as sociedades, e onde uma determinada sociedade poderia ser superior a outra, constituía o alicerce para o determinismo ambiental.

Neste mesmo século surge na França o possibilismo, que elimina a natureza enquanto fator determinante do comportamento humano. Esta corrente do pensamento geográfico tem como principal expoente o geógrafo francês Vidal de La Blache, que também define os estudos sobre a relação homem-natureza como sendo o objeto da geografia. Uma das críticas ao possibilismo estava em não considerar o homem como um ser social, deixando de lado os efeitos políticos e econômicos sobre o meio.

Outra corrente do pensamento geográfico a ser analisada é o método regional, que considerava que cada fenômeno pertencia a uma determinada ciência, sendo a geografa uma ciência de síntese, e responsável por analisar a totalidade afim de se obter uma visão global. Os três paradigmas apontados até este momento fazem parte da chamada geografia tradicional, desenvolvida entre o final do século XIX e meados da década de 1950.

A partir deste período há o surgimento da Nova Geografia, corrente alicerçada no surgimento das novas tecnologias, na quantificação e na abordagem sistêmica. É nesta corrente do pensamento geográfico que os pesquisadores buscavam alicerçar suas pesquisas por meio de técnicas estatísticas e matemáticas. Também havia um certo embasamento no positivismo lógico. Teve como principais expoentes cientistas da Rússia, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.

A partir da década de 1970 os paradigmas tradicionais são amplamente questionados, dando espaço para o surgimento da geografia crítica, que se baseia no materialismo histórico dialético elaborado por K. Marx e F. Engels no fim do século XIX. Estes pensamentos buscavam compreender as contradições da realidade, o sistema capitalista de produção e a divisão da sociedade em classes sociais. Também havia a necessidade de procurar soluções para a diminuição dos problemas sociais, concentração de renda e migrações. Todos estes fatores foram decisivos para que o pensamento marxista fosse incorporado na geografia.

Há também o levantamento de um questionamento sobre a possível existência de um novo paradigma na geografia, chamado de geografia global. Trata-se de uma nova forma de enxergar o mundo por meio das geotecnologias, e onde a possibilidade de aplicação do conhecimento geográfico é ampliado por meio das ferramentas tecnológicas. Esta nova corrente impõe um grande desafio a geografia, que é de agregar o virtual e sua grande variedade de relações.

Categorias de análise da geografia

Com relação às categorias de análise da geografia, destacam-se as seguintes: espaço, território, região, paisagem e lugar.

O espaço seria considerado a condição de ocorrência dos fenômenos. Neste caso, todas as relações só poderiam ocorrer no espaço e a partir dele. Ratzel cria o conceito de espaço vital, que é a área territorial necessária para o estabelecimento e manutenção de uma sociedade. Eliseu Savério Sposito afirma que o estudo sobre o espaço esteve por muito tempo desvinculado do conceito de tempo, mudando somente a partir dos estudos de Albert Einstein.

O estudo do espaço pressupõe a análise de suas categorias: forma, função, estrutura e processo. Neste sentido, o espaço é entendimento como uma natureza transformada, socializada e historicizada. Mesmo havendo um número considerável de definições para o termo espaço, ainda há autores que defendem a necessidade de insistir na busca por novos significados de espaço.

O conceito de território ganhou destaque com a consolidação das relações capitalistas, tendo Ratzel como um dos primeiros a conceituar o termo, que na época se referia a uma área restrita e limitada por fronteiras sob uma jurisdição. As relações sociais, econômicas e culturais também impactam na definição e delimitação de um território. A escala de análise varia do nível local ao internacional.

Com relação ao conceito de região, é possível afirmar que a França ocupou por muito algum tempo o protagonismo no desenvolvimento deste conceito. No determinismo ambiental a região se refere a áreas com características ambientais distintas, sendo resultado da integração dos elementos da natureza: topografia, relevo, vegetação, etc. No possibilismo a região incorpora novos elementos, sendo agora composta por exemplos da natureza e da ação humana.

A paisagem, inicialmente ligada a paisagem natural, também sobre mudanças e passa a resultar das relações existentes entre o homem e a natureza. A paisagem é até onde a vista alcança, porém, para outros trata-se de algo mais amplo, que incorporar elementos que vão além do visível.

O lugar, inicialmente foi definido como tendo características naturais e culturais próprias. Para a geografia humanista, o lugar é onde a vida acontece, sendo carregado de afetividade e significados. No contexto da geografia crítica, o lugar passa a incorporar as questões políticas e econômicas, sendo um espaço carregado de elementos culturais, históricos e de identidade.

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Referência

[1] http://www.fecilcam.br/revista/index.php/geomae/article/viewFile/12/pdf_7

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