As epidemias, denominadas como pestes por antigos estudiosos e historiadores da área, e pandemias causam transtornos a população mundial desde os primórdios dos tempos, tendo origem em diversos continentes como Europa, Ásia e África.

As primeiras doenças que se tem notícia foram registradas por Hipócrates (460-380 a.C), descrevendo a ocorrência de uma peste que assolou Roma. Mesmo com os avanços da ciência, a religião teve forte influência na explicação das doenças, epidemias e pandemias ao longo de vários séculos, pois estas doenças eram descritas como castigos vindo de Deus.

Um resumo sobre as principais pandemias

A peste de Atenas ocorreu em 428 a.C. As consequências da peste foram desastrosas para Atenas. Uma das vítimas da epidemia foi Péricles, o grande estadista, sob cujo governo a civilização grega atingiu o seu apogeu (REZENDE, 2009). A religião também desempenhou um papel central quanto a explicação das origens da peste de Atenas.

A peste negra

A peste negra chegou a Europa ocidental no final de 1347 e começo de 1348. Estima-se que entre 25 – 50% da população europeia morreram decorridos dos males causados pela peste. Segundo Arrizabalaga (1991), a denominação peste negra não tinha sido popularizada na Europa até o século XVII. De acordo com os historiadores a origem desta expressão continua sendo um pequeno mistério até hoje.

Considera-se que esta foi a maior epidemia que a história já registrou, tendo produzido um massacre sem paralelo. Foi chamada de Peste negra pelas manchas escuras que apareciam na pele dos enfermos. Calcula-se em 24 milhões o número de mortos nos países do oriente, também se calcula que a Europa tenha perdido pelo menos um terço de sua população. (REZENDE, 2009 p. 77 e 78).

A cólera e o uso da inteligência geográfica

Um dos primeiros exemplos de uso concreto da inteligência geográfica e análise espacial aconteceu por volta do ano 1854 na cidade de Londres. De acordo com Santos (1994), foi nesta época que a cólera marcou profundamente a história da humanidade, originando-se dos seus nichos ecológicos na Índia.

A cólera se alastrou por todos os continentes chegando até Brasil por volta de 1855 através dos portos. De acordo com a literatura cerca de 200 mil pessoas morreram em 1 ano de incidência da cólera no país.

Nesta época ainda não se conhecia a forma de contaminação da doença, porém, em uma situação aonde já haviam ocorrido mais de 500 mortes, o médico John Snow teve uma ideia:

espacializar em um mapa da cidade a localização dos doentes de cólera e os poços de água, fonte principal de abastecimento da cidade).

Com a espacialização dos dados o Dr. Snow percebeu que a maioria dos casos se concentravam em volta de alguns poços, e ordenou o fechamento destes poços. O resultado foi uma rápida diminuição dos casos de cólera e ao mesmo tempo a descoberta de que a cólera é transmitida por meio de água contaminada.

A gripe espanhola

A chamada gripe espanhola, oriunda da Europa em 1918, após a Primeira Guerra Mundial fez cerca de vinte milhões de vítimas em todo o mundo (REZENDE, 2009). Porém, estudiosos da área afirmam que a Europa não foi o local de surgimento desta gripe, que tem o Estados Unidos ou a Ásia como prováveis pontos de surgimento da gripe.

Estima-se que no Brasil houve cerca de 35 mil óbitos. Esta pandemia gerou um caos sanitário e político na época, pois entre os mortos estava o presidente eleito Rodrigues Alves, que não chegou a tomar posse. A taxa de letalidade da gripe espanhola era de aproximadamente 6% a 8%.

Um fato que agravou ainda mais a letalidade da gripe espanhola foi o fato de ter sido disseminada no período da primeira guerra mundial. Como os países estavam concentrados nos esforços de guerra e a imprensa não dava o devido interesse ao problema em seus noticiários, não houve tempo dos sistemas de saúde e nem da população dos países se preparem para a pandemia.

H1N1

Em 2009 o mundo passou por uma nova experiência envolvendo uma doença respiratória, causada pelo vírus de gripe Influenza A H1N1 caracterizada por um vírus híbrido de aves, suínos e humanos, que contaminou inicialmente pessoas na cidade de Oxaca no México (AUERBACH, 2013).

De acordo com Neumann (2009), até 27 de agosto de 2009 havia cerca de 237 mil casos confirmados e 2185 óbitos confirmados em todo o mundo. No Brasil foram confirmados 5.206 casos de Influenza A.

COVID-19

A Covid-19 ou coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias e que atualmente é considerada a pior pandemia da década pela quantidade de vítimas fatais. Assim como nas demais pandemias, a geografia por meio da cartografia e da análise espacial tem uma grande chance de contribuir com a diminuição dos impactos desta crise.

Atualmente somente os profissionais da saúde, da segurança pública e da economia tem contribuído para o controle desta pandemia. Por isso, nos perguntamos de que forma a geografia pode contribuir com o controle da pandemia.

A primeira contribuição se refere aos conceitos veiculados por Milton Santos relativos aos espaços Opacos e Espaços luminosos, onde os espaços paços são desprovidos de infraestrutura básica como transporte, desenvolvimento industrial e são espaços com pouca fluidez.

Nos espaços opacos se encontram as famílias mais pobres. É nestes espaços que o vírus pode se reproduzir de forma mais acelerada, pois nestes espaços as pessoas possuem uma relação de maior proximidade e amizade com os seus vizinhos. Também são espaços onde há um menor indicie educacional. Por isso, os espaços opacos são mais vulneráveis ao vírus vindo principalmente dos espaços luminosos, onde se concentram as pessoas com maior renda e educação.

Os espaços luminosos possuem grande fluidez. São espaços industrializados e possuem uma maior infraestrutura e mobilidade. Nestes espaços vivem pessoas com maior poder aquisitivo e com grau de educação mais elevado. Os espaços luminosos foram, inicialmente, os responsáveis pela propagação do COVID-19 devido a maior mobilidade e riqueza nestes espaços.

Com meio de transportes excelentes, meio técnico científico informacional rico e boa mobilidade urbana entre os espaços luminosos, a propagação do vírus se deu de forma acelerada e logo todas as classes sociais e vários países foram infectadas.

A compreensão destes espaços ajuda a entender como as doenças conseguem chegar a lugares tão distantes e como os deslocamentos e o desenvolvimento técnico/científico informacional influencia no processo de propagação e controle das pandemias.

A cartografia, ciência e arte de representar fenômenos geográficos por meio de documentos gráficos e digitais, é o instrumento por excelência, para a representação da propagação do COVID-19 em todo o mundo.

A distribuição dos casos por meio de mapas permite auxiliar em um melhor planejamento das ações de contenção do vírus em um país, estado, município ou bairro. O mapeamento da população urbana e das áreas com maior vulnerabilidade social, por exemplo, ajuda a compreender como se dá o processo de propagação das doenças, epidemias e pandemias.

Por tanto, a compreensão das desigualdades existentes no espaço e da forma como as doenças e vírus se propagam ajudam os políticos, tomadores de decisão, a proporem medidas de contenção de epidemias.

Referências

ARRIZABALAGA, Jon. La Peste Negra de 1348: los orígenes de la construcción como enfermedad de una calamidad social. 1991. Disponível em: <https://digital.csic.es/handle/10261/33484>.

AUERBACH, Patrick; OSELAME, Gleidson Brandão; DUTRA, Denecir de Almeida. Revisão histórica da gripe no mundo e a nova H7N9. Revista de Medicina e Saúde de Brasília. v.2, n.3, 2013. p. 183 – 197.

SANTOS, MILTON. O Brasil território e sociedade no início do século XXI.2001

NEUMANN, Cristina Rolim et al. Pandemia de influenza A (N1H1): o que aprender com ela?. Revista HCPA. Porto Alegre. Vol. 29, n. 2 (2009), p. 92-99, 2009.

REZENDE, Joffre Marcondes de. À sombra do plátano: crônicas de história da medicina [online]. São Paulo: Editora Unifesp, 2009. As grandes epidemias da história. pp. 73-82. ISBN 978-85-61673-63-5.

SANTOS, Luiz Antonio de Castro. Um século de cólera: itinerário do medo. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 4, n. 1, p. 79-110, 1994.

SARAIVA, Luiza JC; DE FARIA, Joana Frantz. A Ciência e a Mídia: A propagação de Fake News e sua relação com o movimento anti-vacina no Brasil. 2019. 42º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Belém – PA. Disponível em: < http://portalintercom.org.br/anais/nacional2019/resumos/R14-1653-1.pdf>

Links de sites

http://www.dpi.inpe.br/spring/portugues/tutorial/analise.html

https://coronavirus.saude.gov.br/

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