Milton Santos foi o primeiro geógrafo da América Latina a receber o Prêmio Vautrin Lud, considerado o prêmio nobel da Geografia. Também é considerado o geógrafo que mais visibilidade deu à Geografia brasileira.

Em muitos aspectos, Milton Santos foi um homem à frente de seu tempo. Na era na qual muitos proclamavam o ‘fim da história’, ele introduziu o pensamento geográfico no centro do pensamento social do país, deu visibilidade à geografia brasileira e auto-estima a muitos geógrafos. Sua própria visibilidade e de sua obra foram de tal importância que extrapolaram os muros acadêmicos em 1994, quando ganhou o maior prêmio internacional da Geografia, o Vautrin Lud, uma espécie de Nobel da especialidade, atribuído por universidades de vários países [1], e que geralmente acontece na França.

Milton Almeida dos Santos nasceu em Brotas de Macaúbas (BA), no dia 3 de maio de 1926. Graduado em Direito, destacou-se por seus trabalhos em diversas áreas da geografia, em espacial nos estudos de urbanização do Terceiro Mundo. Foi um dos grandes nomes da renovação da geografia no Brasil ocorrida a partir da década de 1970. Também se destacou por seus trabalhos sobre a globalização nos anos 1990.

A obra de Milton Santos caracterizou-se por apresentar um posicionamento crítico ao sistema capitalista, e seus pressupostos teóricos dominantes na geografia de seu tempo.

Milton Santos (1926-2001) participou ativamente, por mais de cinco décadas, de importantes debates teóricos ocorridos ao longo da história da na de estudo escolhida, a ciência geográfica. Sua obra é composta por cerca de 40 livros, 15 trabalhos de editoria, 21 publicações menores e cerca de 380 artigos científicos, além de entrevistas, apresentações, prefácios e matérias de jornal [2]

Viveu e lecionou em diferentes cidades do continente americano, africano e europeu. Além de lecionar, também trabalhava como jornalista e editorialista. Porém, foi como professor e pesquisador em geografia que participou de importantes debates envolvendo temas como globalização, cidades e renovação de pensamentos geográficos dentro e fora do país.

História acadêmica e profissional

Ao terminar os estudos ginasiais, Milyon Santos fez o curso pré-jurídico entre 1942 e 1943 e com 18 anos prestou o vestibular para direito na Universidade Federal da Bahia, formando-se em 1948. Mesmo concluindo a formação em Direito não deixou o interesse pela geografia.

No Congresso Internacional de Geografia, sediada no Rio de Janeiro, Milton Santos foi convidado para fazer doutorado na França. Entre 1956 e 1958, concluiu seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, com a tese “O Centro da Cidade de Salvador”.

Ao regressar ao Brasil, criou o Laboratório de Geomorfologia e Estudos Regionais, mantendo intercâmbio com os mestres franceses. Em 1960, tornou-se livre-docente em Geografia Humana pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nessa época, teve presença marcante na vida acadêmica, em atividades jornalísticas e políticas de Salvador.

Seria demitido da Universidade Federal da Bahia em 1964. Ainda em 1960, realizou outras importantes contribuições à geografia brasileira, ao fundar a Seção Regional da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) na Bahia e organizar o Boletim Baiano de Geografia, que continuaria sendo publicado até 1969. Em 1962, foi eleito presidente da AGB, com o apoio de Caio Prado Jr [2]

Em 1964, logo após o golpe militar que instituiu a ditadura no Brasil, Milton Santos foi preso. Sabe-se que Milton Santos era influente no meio político nacional, tendo inclusive integrado a comitiva do então presidente Jânio Quadros quando este fez uma viajem a Cuba. Em junho de 1964, devido a um princípio de AVC, foi levado ao hospital e depois foi solto. Nesta época, já havia recebido vários pedidos para lecionar na França. Após meio ano de prisão domiciliar e uma negociação entre o cônsul da França e as autoridades militares, Milton consegue sair do país para ficar por um período de 6 meses, porém acaba ficando fora do país por 13 anos. Este longo período fora lhe custou o cargo de professor na Universidade onde lecionava, a UFBA. Só conseguiu retornar ao Brasil em 1977 e em 1978 publicou o livro “Por uma Geografia Nova”, no qual criticava os parâmetros existentes e pedia pela renovação desta ciência.

Em 1977, retorna ao Brasil. Passam-se dois anos antes de conseguir voltar a ensinar na universidade brasileira, primeiro na Universidade Federal do Rio de Janeiro, de 1979 a 1983, ano em que ingressa por meio de concurso público na Universidade de São Paulo, se tornando professor titular de geografia humana até a aposentadoria compulsória, recebendo o título de Professor Emérito da USP em 1997 e continuando a pesquisar, publicar e orientar estudantes até o final de sua vida.

Só seria reintegrado oficialmente à Universidade Federal da Bahia em 1995, da qual tinha sido demitido por “ausência”. Cabe destacar que doze universidades brasileiras e sete universidades estrangeiras lhe outorgaram o titulo de Doutor Honoris Causa [3]

É inegável o importante papel da trajetória epistemológica de Milton Santos na construção de uma geografia teórica. Somado à sua extensa obra, o Acervo Milton Santos (que inclui a biblioteca e o arquivo de documentos) representa um material precioso para a pesquisa não apenas em história do pensamento geográfico como também na própria história das ideias no Brasil e no mundo. [2]

[1] https://periodicos.ufsc.br/index.php/geosul/article/view/13606/12472

[2] https://www.redalyc.org/pdf/4056/405641274013.pdf

[3] http://miltonsantos.com.br/site/

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