O fato da realização de estudos geográficos pode conferir o título de geógrafo (a) a alguém? A formação acadêmica do mestre e doutor em geografia pode tornar alguém geógrafo, mesmo não tendo graduação na área? O que torna alguém geógrafo é uma questão que parece consolidada no campo acadêmico, porém é uma questão que suscita debates calorosos entre os profissionais da área, principalmente aqueles que precisam se registrar junto ao Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de seu estado (CREA).

Passados quatro décadas da publicação da lei que rege a profissão de Geógrafo em território brasileiro, esta profissão ainda permanece quase que desconhecida por grande parte da sociedade, seja pelo pouco número de profissionais atuantes, pela ausência de associações e conselhos de classes que divulguem a existência deste profissional ou simplesmente pela confusão que se estabeleceu sobre quem é o profissional geógrafo, se é o licenciado em geografia, bacharel ou aqueles que possuem notório saber e conhecimento produzido acerca dos conhecimentos geográficos. 

Trata-se de um assunto que ainda gera debates acalorados tanto entre bacharéis e licenciados quanto entre professores universitários que possuem visões distintas acerca da formação em geografia. As divergências encontradas na academia acabam por alimentar não só a separação entre profissionais licenciados e bacharéis como também contribuir para a pouca visibilidade destes profissionais perante a sociedade, além de enfraquecer a identidade de quem obtém uma formação universitária em geografia.

Basta uma pesquisa rápida na internet ou em artigos científicos e lá estará a definição do geógrafo como um profissional responsável por analisar os aspectos da superfície da Terra e sua relação com as características sociais, econômicas, entre outros. Há definições que enfatizam o caráter técnico, outras que enfatizam a necessidade de conhecer as características sociais e humanas da sociedade. Porém, poucas definições enfatizam de forma precisa quem realmente é esse geógrafo da qual falamos e quem realmente pode se dar ao luxo de ser chamado por esta denominação. Discutir sobre a disputa pela denominação Geógrafo se constitui uma tarefa complexa e espinhosa sobre a qual se faz necessário uma análise, afim de lançar luz sobre esta discussão que causam tanta discórdia entre professores, bacharéis e licenciados em geografia.

O que dizem alguns autores sobre o termo Geógrafo?

A licenciatura é uma categoria de curso superior que habilita os profissionais que irão lecionar aulas sobre uma determinada área do conhecimento para o ensino fundamental, médio ou superior. Destaca-se neste caso, o caráter escolar da formação de licenciado. O bacharelado é um curso superior que possui um caráter mais generalista. Os bacharéis são profissionais que podem atuar em diversas áreas dentro da sua especialidade de formação. Os cursos de bacharelado não possuem disciplinas pedagógicas e estágio curricular obrigatório em docência. Essa é provavelmente uma das maiores diferenças entre a formação do licenciado e do bacharel em geografia. 

A Geografia, assim como a biologia, química, física, entre outros., possuem cursos que formam licenciados e bacharéis. Estas duas formações irão determinar se o profissional irá lecionar em alguma escola ou universidade ou atuar com questões técnicas. Porém, é importante destacar que, em alguns casos, a formação não impede que um profissional extrapole os limites determinados pela regulamentação da sua profissão.

Estrabão, geógrafo, historiador e filósofo grego afirmou, por volta de 18 – 24 a.C, que o geógrafo é a pessoa que tenta descrever parte da Terra. Para Cêurio de Oliveira, autor do Dicionário Cartográfico, geógrafo é o especialista em estudos e pesquisas geográficas. 

Ao escrever para a Associação Americana de Geógrafos Roger M. Downs  cita o geógrafo como educadores em geografia e como geógrafos profissionais.  Carl O. Sauer ao falar da educação de um geógrafo comenta que este constantemente necessita de mapas em suas análises, e afirma que aqueles que não fazem uso desta ferramenta levanta dúvidas sobre se fez a opção correta de profissão na vida. Porém, esta afirmação não contribui para entender quem poderia ser considerado um “geógrafo”.

Ao analisar a Tese de doutoramento de Roberto Schmidt de Almeida, intitulada A geografia e os geógrafos do IBGE no período 1938-1998, este cita os termos pesquisadores geógrafos e profissionais geógrafos.

Tanto Roberto Schmidt quanto outros geógrafos reconhecidos fizeram um esforço para que o profissional geógrafo seja devidamente registrado e reconhecido pelo Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia) e pelo Crea (Conselho Regional de Engenharia e Agronomia), porém não tratam do uso do termo geógrafo como privativo daqueles que se registram no conselho regional de engenharia e agronomia (CREA).   

Iara Cordeiro de Souza e Cristina P. Mary ao tratar da formação e das concepções historiográficas do curso de geografia da Universidade Federal Fluminense fala do desempenho da universidade na formação de professores e bacharéis, citando a formação de geógrafos em um sentido mais amplo. Entende-se que a autora se refere ao geógrafo como um profissional mais completo, incluindo tanto o licenciado quanto o bacharel e/ou até grandes personalidades que contribuíram para a geografia mesmo sem ter formação acadêmica na área [1]

Por outro lado, Jorge Luiz B. Silva e Regina R. Ramires ao tratar das dificuldades e desafios da formação em geografia fala da construção de uma identidade formativa do geógrafo e do professor de geografia. A ideia seria contribuir com o fortalecimento da identidade profissional do geógrafo, a partir da provação do uso deste termo por outros profissionais, como os licenciados em geografia [2]

O termo geógrafo no campo acadêmico

No campo acadêmico há sempre a citação de grandes teóricos da geografia com a denominação de geógrafo, tais como o brasileiro Milton Santos, o britânico David Harvey, ambos laureados com o Prêmio Vautrin Lud de Geografia, considerado o prêmio Nobel da Geografia e ainda o notável escritor Josué de Castro com a sua importante obra Geografia da fome. Mesmo com obras reconhecidas na geografia, um profissional, em tese, não poderia atuar como geógrafo sem o registro na entidade de classe correspondente. Porém, com relação a denominação a uma certa tendência em não haver este mesmo rigor, vide a reportagem do próprio CONFEA a cerca de Milton Santos: Geógrafo Milton Santos será o homenageado de 2016 do Prêmio Celso Furtado.  

O geógrafo e o professor de geografia

A lei que regulamenta a profissão do Geógrafo não o contempla com a possibilidade de exercer atividade docente, embora este possa exercer a docência em universidades públicas e privadas. O licenciado em geografia, por sua vez, pode exercer atividades no ensino básico, médio e superior.

Embora pareçam profissões bem delimitadas, ainda existem embates envolvendo as áreas, onde mais recentemente ganhou um novo capítulo devida a instituição do dia do professor de geografia na data de assinatura da lei 6664 em 26 de junho de 1979, que institui a profissão de geógrafo como aquele profissional bacharel em geografia com registro no seu respectivo CREA.  Destaca-se que a melhor data para a comemoração do dia do professor de geografia seria em 19 de dezembro, data em que ocorre a aprovação do currículo mínimo do licenciado. 

De acordo com Genylton O. R. Rocha a regulamentação da profissão de professor de geografia precede quase uma década e meia a lei que regulamenta a profissão de geógrafo. Destaca-se que ambas as profissões derivadas de quem se forma em licenciatura quanto no bacharelado possuem legislações diferentes, sendo que o título de geógrafo não é dado, pelo menos por lei, para aqueles que possuem somente a licenciatura na área [3]

No caso do curso de Geografia, o tema da denominação profissional por vezes divide os docentes que trabalham com a formação superior, contribuindo para criar dúvidas nos alunos que ingressam no curso. Isto acaba por contribuir para que os alunos desconheçam as atribuições específicas da carreira escolhida.  

É preciso construir uma identidade profissional tanto para o licenciado quanto para o bacharel afim de consolidar seu modo de atuar nas instituições públicas e privadas. E isso começa pela instituição em que estes profissionais estão sendo formados.

A discussão sobre quem realmente pode ser chamado (a) de geógrafo (a) é longa, e se renova a cada dia 29 de maio, dia em alusão as comemorações da profissão de geógrafo ou 26 de junho. Ocorre que muitos professores, inclusive professores universitários também reivindicam o nome de Geógrafo para todos que de alguma forma conseguem concluir a graduação em geografia. 

Tudo isso demonstra que a Geografia não está dividida somente pela dicotomia Geografia física x geografia humana, como também pela indefinição de quem realmente pode ser chamado de geógrafo ou não. Há que se falar em um Geógrafo mais literário, aqueles que produziram notáveis conhecimentos científicos na área de geografia. Há os profissionais que atuam diretamente em empresas e órgãos públicos que exigem o registro no Crea da sua cidade e também há aqueles que dedicam a sua vida no campo do ensino.

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Referências consultadas

[1] SOUZA, Iara Cordeiro de; MARY, Cristina Pessanha. Curso de Geografia da Universidade Federal Fluminense: formação, sentido e concepções historiográficas 1947 – 1960. XIII Enanpege, 2019.

[2] SILVA, Jorge Luiz Barcellos da; RAMIRES, Regina Rizzo. Onde se constrói a identidade formativa do geógrafo e do professor de geografia? Ou ainda, é possível fazer geografia nos cursos de geografia? Terra Livre, v. 2, n. 31, 2015.

[3] ROCHA, Genylton Odilon Rêgo da. Uma Breve História da Formação do Professor de Geografia no Brasil. Terra Livre, São Paulo, v. 15, p. 129-144, 2000.


http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1930-1949/D23569.htm

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/historicos/dpl/DPL3001-1880.htm

https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=318593

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