• Pequeno resumo do Livro A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo escrito por Max Weber

Ao estudarmos qualquer problema da história universal, o produto da moderna civilização Europeia estará sujeito à indagação de quais combinações de circunstâncias se pode atribuir o fato da civilização ocidental, e só nela, terem aparecido fenômenos culturais que apresentam uma linha de desenvolvimento de significado e valor universais.

A mesma observação é válida no tocante às artes. O ouvido musical dos outros povos era, provavelmente, de sensibilidade até mais desenvolvida do que o nosso; e certamente não o era menos. A música polifônica de diversos tipos era amplamente distribuída sobre o planeta. Diversos instrumentos tocando em conjunto, assim como o canto de partes da música, existiram em toda parte. Todos os nossos intervalos racionais de tons eram conhecidos e calculados.

Mas a música de harmonia racional tanto o contraponto quanto a harmonia , a formação do tom básico sobre três tríades com o terceiro harmônico; nossa cromática e enarmônica, não interpretadas em termos de espaço mas, desde o Renascimento, em termos de harmonia; nossa orquestra, com seu núcleo de quarteto de cordas e a organização do conjunto de sopros; nosso acompanhamento de graves; nosso sistema de notação, que tornou possível a composição e o moderno trabalho musical e, pois, a sua própria sobrevivência; nossas sonatas, sinfonias, óperas e, finalmente, nossos instrumentos fundamentais que são expressão daquelas: o órgão, o piano, o violino etc.

Todas essas coisas são conhecidas apenas no Ocidente, embora a música descritiva, a poesia tonal, as alterações de tonalidade e cromáticas tenham existido como meios de expressão de várias tradições musicais.

O capitalismo dos patrocinadores, dos grandes especuladores, dos caçadores de concessões e muito do moderno capitalismo financeiro, mesmo em tempos de Paz, mas acima de tudo, aquele capitalismo envolvido com a exploração da guerra, ostenta essa marca mesmo nos modernos países do Ocidente, e uma parte – e apenas uma parte – do grande comércio internacional está estritamente relacionado com isso.

À primeira vista, a forma especial do moderno capitalismo ocidental teria sido fortemente influenciado pelo desenvolvimento das possibilidades técnicas. Sua racionalidade é hoje essencialmente dependente do calculo dos fatores técnicos mais importantes.

Racionalizações dos mais variados tipos têm existido em vários setores da vida, em todas as áreas da cultura. Para caracterizar suas diferenças de um ponto de vista da história da cultura é necessário saber quais setores foram racionalizados e em que direção. Por isso, nossa primeira preocupação é desvendar e explicar a gênese e a peculiaridade do racionalismo ocidental e, por esse enfoque, sua forma moderna.

Dois ensaios anteriores foram colocados no início, como tentativa de abordar um ponto importante do problema que é geralmente mais difícil de ser apanhado: a influência de certas ideias religiosas no desenvolvimento de um espírito econômico, ou o ethos de um sistema econômico. Nesse caso estamos lidando com a conexão do espírito da moderna vida econômica com a ética racional da ascese protestante.

Assim, tratamos aqui apenas de um lado do encadeamento causal. Os estudos posteriores sobre Ética Econômica das Religiões Mundiais tentam uma visão geral das relações entre as mais importantes religiões, a vida econômica e a estratificação social de seu meio, para seguir ambas as relações causais até onde for necessário para achar pontos de comparação com o desenvolvimento ocidental.

É necessária uma justificativa para o fato de não ter sido utilizado o material etnográfico numa extensão compatível com o valor que sua contribuição naturalmente mereceria em qualquer investigação profunda, especialmente quanto às religiões asiáticas.

Tal limitação não foi apenas imposta pelo restrito potencial humano de trabalho. A omissão pareceu nos permissível por estarmos aqui, necessariamente, tratando da ética religiosa das classes que foram as vigas mestras da cultura em seus respectivos países. O que interessa é a influência que sua conduta teve.  

Filiação religiosa e estratificação social

Uma simples olhada nas estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa mista mostrará, com notável frequência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas e nos congressos católicos, principalmente na Alemanha: o fato que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante.

Os resultados de tais circunstâncias favorecem os protestantes, até hoje, na sua labuta pela existência econômica. Surge assim a indagação histórica: porque os lugares de maior desenvolvimento econômico foram, ao mesmo tempo, particularmente propícios a uma revolução dentro da Igreja? A resposta não é tão simples como se poderia pensar.

A emancipação do tradicionalismo econômico parece sem dúvida ser um fator que apoia grandemente o surgimento da dúvida quanto à santidade das tradições religiosas e de todas as autoridades tradicionais. Devemos, porém, notar que a Reforma protestante não implicou na eliminação do controle da Igreja sobre a vida quotidiana, mas na substituição por uma nova forma de controle. Significou de fato o repúdio de um controle que era muito frouxo e, na época praticamente imperceptível, pouco mais que formal, em favor de uma regulamentação da conduta como um todo, que penetrando em todos os setores da vida pública e privada, era infinitamente mais opressiva e severamente imposta.

A tarefa do autor é investigar essas religiões com o intuito de descobrir as particularidades que têm ou que tiveram, que resultaram no comportamento descrito acima. Numa análise superficial, e com base em certas impressões comuns, poderíamos ser tentados a admitir que a menor mundanidade do catolicismo, o caráter ascético de seus mais altos ideais tenha induzido seus seguidores a uma maior indiferença para com as boas coisas deste mundo. E tal explicação reflete a tendência de julgamento popular de ambas as religiões.

Ambos diferem de modo semelhante da tendência religiosa predominante em seus respectivos países. Os católicos da França são, em seus escalões inferiores, grandemente interessados nos prazeres da vida e, nas camadas superiores, francamente hostis à religião. Os protestantes da Alemanha, do mesmo modo, são absorvidos pelas atividades econômicas diuturnas e, nas suas camadas superiores, são muito indiferentes à religião.

Dificilmente alguma coisa poderá mostrar tão claramente como essa comparação que, tais vagas ideias, como o suposto desapego do Catolicismo e da suposta alegria materialista do Protestantismo, e outras semelhantes, de nada servem para o nosso propósito. Tais termos gerais de diferenciação não refletem os fatos de hoje, e certamente nem mesmo os passados.

Esses casos não são isolados, mas seus traços são característicos de muitas das mais importantes Igrejas e seitas da história do Protestantismo. O Calvinismo, em especial, por onde quer que tenha surgido, mostrou essa combinação. Embora de pouca monta no tempo da expansão da Reforma, ele (como qualquer outra crença protestante) estava associado a certas classes sociais específicas, e é característico e até típico que, nas Igrejas dos Huguenotes da França, monges de negócios (comerciantes e artesãos) fossem especialmente numerosos entre os fiéis, especialmente no tempo das perseguições.”

O espírito do capitalismo

O autor afirma que se tentarmos determinar o objeto, a análise e explicação histórica não podem ser feitas na forma de definição conceitual, mas, ao menos no início, como uma descrição provisória do que entendemos aqui por espírito do capitalismo. Tal descrição é, entretanto, indispensável para uma compreensão clara do objetivo da investigação.

Assim, o autor fala a seguinte frase, “Não te permitas pensar que tens de fato tudo o que possuis, e viver de acordo. Esse é um erro em que caem muitos que têm crédito. Para evitar isso, mantenha por algum tempo uma contabilidade exata de tuas despesas e tuas receitas. Se, de início te deres ao trabalho de mencionar os detalhes, isso terá este bom efeito: descobrirás que mesmo pequenas e insignificantes despesas se acumulam em grandes somas, e discernirás o que poderia ter sido e o que poderá ser, no futuro, poupado sem causar grandes inconvenientes”.

Aquilo que no caso de Franklin foi uma expressão de audácia comercial e uma inclinação pessoal moralmente neutra assume nesse outro o caráter ético de uma regra de conduta de vida. O conceito de espírito do capitalismo é usado aqui no sentido específico de espírito do capitalismo moderno. Pelo modo como estamos colocando o problema, é obvio que estamos nos referindo ao capitalismo da Europa Ocidental e da América do Norte.

Naturalmente não afirmamos tampouco que a aceitação consciente de tais máximas éticas por parte dos indivíduos, quer empresários quer trabalhadores das modernas empresas capitalistas seja condição para a futura existência do capitalismo atual. A economia capitalista moderna é um imenso cosmos no qual o indivíduo nasce, e que se lhe afigura, ao menos como indivíduo, como uma ordem de coisas inalterável, na qual ele tem de viver. Ela força o indivíduo, a medida que esse esteja envolvido no sistema de relações de mercado, a se conformar às regras de comportamento capitalistas.

Com isso, o fabricante que se opuser por longo tempo a essas normas será inevitavelmente eliminado do cenário econômico, tanto quanto um trabalhador que não possa ou não queira se adaptar às regras, que será jogado na rua, sem emprego. Assim pois, o capitalismo atual, que veio para dominar a vida econômica, educa e seleciona os sujeitos de quem precisa, mediante o processo de sobrevivência econômica do mais apto.

Como todo empregador sabe, à falta de consciência dos trabalhadores desses países por exemplo da Itália se comparada com a Alemanha, foi e ainda é em certa medida o principal obstáculo ao seu desenvolvimento capitalista. O capitalismo não pode se utilizar do trabalho daqueles que praticam a doutrina da liberum arbitrium indisciplinado, e menos ainda pode usar os homens de negócios que pareçam absolutamente inescrupulosos ao lidar com outros, como aprendemos de Franklin.

O mais importante oponente contra o qual o espírito do capitalismo, entendido como um padrão de vida definido e que clama por sanções éticas, teve de lutar, foi esse tipo de atitude e reação contra as novas situações, que poderemos designar como tradicionalismo. Também nesse caso, qualquer tentativa de definição final deve ser mantida em suspenso.

O tipo ideal de empreendedor capitalista, como foi representado mesmo na Alemanha por exemplos visíveis ocasionais, não tem qualquer relação com tal arrivismo mais ou menos refinado. Ele evita a ostentação e gastos desnecessários, assim como o regozijo consciente do próprio poder, e fica embaraçado com as manifestações externas de reconhecimento social que recebe. Seu modo de vida, em outras palavras, distingue se muitas vezes, e teremos de investigar a importância histórica desse fato importante por certa tendência ascética.

A concepção de vocação de Lutero

O conceito de vocação foi, pois, introduzido no dogma central de todas as denominações protestantes e descartado pela divisão católica de preceitos éticos em praecepta et consilia. O único modo de vida aceitável por Deus não era o superar a moralidade mundana pelo ascetismo monástico, mas unicamente o cumprimento das obrigações impostas ao indivíduo pela sua posição no mundo. Esta era sua vocação.

O modo como se deu o desenvolvimento do conceito de vocação, que expressou essa mudança, passou a depender da evolução religiosa ocorrida nas diferentes Igrejas protestantes. A autoridade da Bíblia, da qual Lutero pensou ter derivado sua ideia de vocação, favorecia por completo a interpretação tradicionalista.

Para Lutero, pois, o conceito de vocação permaneceu tradicionalista. Sua vocação é algo que o homem deve aceitar como uma ordem divina, à qual deve se adaptar. Este aspecto é mais importante que a outra ideia, também presente, de que o trabalho vocacional era uma, ou melhor, a tarefa confiada por Deus.

Adotaremos, pois como ponto de partida na investigação das relações entre a velha ética protestante e o capitalismo, o trabalho de Calvino, o Calvinismo e outras seitas puritanas. Não deve, porém, ser entendido que devemos ter a esperança de encontrar nos fundadores ou nos representantes de tais movimentos religiosos os promotores daquilo que chamamos de espírito do capitalismo, com o sentido de finalidade de vida.

Para nós, o problema decisivo é o seguinte: como esta doutrina nasceu numa época em que o pós-morte era não só mais importante, como também, de muitas maneiras, mais incontestável que todos os interesses da vida no mundo? A pergunta: “serei eu um dos eleitos?” deve, cedo ou tarde, ter ocorrido a todo crente e deslocado qualquer outro interesse para o segundo plano. E como poderei ter certeza deste estado de graça? Para o próprio Calvino isto não foi um problema. Ele se sentia como um agente escolhido do Senhor, e tinha certeza de sua própria salvação.

De acordo com isso, diante da pergunta de como o indivíduo poderia ter a certeza de sua eleição, ele tinha, no fundo, apenas a resposta que deveríamos estar contentes com o conhecimento de que Deus havia feito a escolha, e dependendo além disso apenas daquela confiança implícita em Cristo, que é o resultado da verdadeira fé.

Pietismo

Historicamente, a doutrina da predestinação é também o ponto de partida do movimento ascético geralmente conhecido como Pietismo. E como o movimento, permaneceu interno à Igreja Reformada. É quase impossível traçar uma linha entre os calvinistas, pietistas e não pietistas. Quase todos os principais expoentes do puritanismo são às vezes classificados como pietistas.

Metodismo

A combinação de um tipo de religião emocional e ainda assim ascética com a crescente indiferença ou até o repúdio das bases dogmáticas do ascetismo calvinista é também a característica do movimento anglo americano, correspondente ao Pietismo continental, chamado Metodismo. O nome em si mostra o que impressionava os contemporâneos como característica de seus seguidores: a natureza sistemática e metódica da conduta com o propósito de obter a certitudo salutis. Isso foi, desde o início, o centro da aspiração religiosa também desse movimento, e assim continuou.

 A despeito de todas as diferenças, sua indiscutível relação com certos ramos do Pietismo alemão é mostrada acima de tudo pelo fato de o método ter sido usado primeiramente para provocar o ato emocional da conversão.

As seitas batistas

Por outro lado, encontramos uma segunda fonte independentemente do ascetismo protestante e ao lado do calvinismo no movimento batista e nas seitas” que, ao longo dos séculos XVI e XVII dele derivaram diretamente ou adotaram sua forma de pensamento religioso: os batistas, os menonitas e, acima de tudo, os quakers.

Eles repudiavam absolutamente toda idolatria à carne como uma detração à reverência que era devida só a Deus.” O modo de vida bíblico foi concebido pelos primeiros batistas suíços e da Alemanha do sul com um radicalismo semelhante ao do jovem S. Francisco, como uma rigorosa ruptura com toda alegria de viver, uma vida moldada diretamente na dos apóstolos.

As seitas batistas, juntamente com os predestinados, e em especial os calvinistas mais estritos, levaram a cabo a desvalorização mais radical de todos os sacramentos como meios de salvação, obtendo com isso a racionalização religiosa do mundo na sua forma mais intensa.

O ascetismo e o espírito do capitalismo

Para compreendermos a ligação entre as ideias religiosas fundamentais do protestantismo ascético e suas máximas sobre a conduta econômica cotidiana, faz se necessário examinar com especial cuidado os escritos que foram evidentemente derivados da prática clerical.

Um dos elementos fundamentais do espírito do capitalismo moderno, e não só dele, mas de toda a cultura moderna, é a conduta racional baseada na ideia de vocação, nascida – como se tentou demonstrar nesta discussão – do espírito do ascetismo cristão. Uma vez que o ascetismo se encarregou de remodelar o mundo e nele desenvolver seus ideais, os bens materiais adquiriram um poder crescente e, por fim inexorável, sobre a vida do homem como em nenhum outro período histórico.

Assim, nos dias atuais, o espírito do ascetismo religioso, quem sabe se definitivamente, fugiu da prisão. Mas o capitalismo vitorioso, uma vez que repousa em fundamentos mecânicos, não mais precisa de seu suporte.

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