Breve introdução

A geografia possui uma longa e rica história. Trata-se de uma ciência que sempre se revelou desafiadora, atual e importante para toda a sociedade, embora em alguns períodos da história a sociedade tenha remetido esta ciência a um papel secundário.

Ao longo dos anos a geografia tem sido uma ciência preocupada em estudar e compreender o espaço geográfico e, por conseguinte, o território enquanto espaço social, político e econômico. Este espaço, fruto das relações entre a sociedade e a natureza, constitui como um dos objetos de estudo da geografia. Neste sentido, o espaço, a sociedade e suas inter-relações são temas de grande interesse da geografia.

No contexto da sociedade atual é possível afirmar que a geografia tem se preocupado com diversas questões, entre elas é possível destacar a sociedade da informação, a sociedade e as questões ambientais, as relações de trabalho, entre outras.  A importância da sociedade da informação está na possibilidade de compreender como as redes informativas disponíveis contribuem para a produção do espaço, mudanças culturais, organização social e comunicações.

Além da discussão da questão ambiental e de questões de comunicação também há uma série de contribuições de geógrafos para o entendimento do conceito de espaço geográfico, enquanto uma construção social e ambiental em constante processo de modificação. Embora se constitua em uma complexa discussão do ponto de vista teórico/metodológico, é fundamental entender a relação entre aquilo que define e que se constitui como objetivo de estudo da geografia, o meio ambiente e a sociedade.

Noções sobre geografia e sociedade

A Geografia é uma ciência que estuda as questões sociais e seus problemas, sua relação com a natureza e a influência desta nas questões antrópicas. É por vezes, uma área de difícil definição pelo fato de ser fruto de contribuições científicas de diversas outras áreas e de uma grande quantidade de especializações internas. 

Pelo fato de ter sido desenvolvida sob a égide social e ambiental não se pode falar sobre as contribuições e relações entre geografia e sociedade sem deixar de considerar as questões ambientais, a influência da sociedade para a transformação do espaço inabitado e sua transformação em espaço geográfico e a influência dos componentes ambientais para o desenvolvimento da sociedade.

Porém, é importante destacar que a geografia não estuda somente a influência ambiental sobre a sociedade e o meio ambiente. É preciso considerar que as transformações sociais que ocorrem nas últimas décadas são frutos de uma série de ações, decisões e desejos. Há neste caso, uma multiplicidade de objetos que contribuem e que de certa forma são importantes para caracterizar a relação que existe entre a geografia e a sociedade, tais como: as diferenças sociais, o uso e ocupação do território, a estruturação dos modos de produção e de trabalho, etc.

A forma como as sociedades se estruturam tem relação com o modo como se organizam o processo do trabalho. Toda sociedade é ontologicamente derivada do trabalho, origem genética do conjunto de suas relações [1]. Partindo deste ponto de vista, é possível identificar um ramo de análise da geografia, envolvendo a sociedade e sua organização em torno das mudanças que ocorrem com os diferentes tipos de trabalho.

Além do estudo do trabalho também se torna possível analisar a sociedade do ponto de vista geográfico a partir das questões ambientais que surgem no âmbito da primeira revolução industrial e que se intensifica na medida que o capital demanda por uma quantidade maior de materiais primas. Grande parte da sociedade se encontra, a partir do final do século XX e os primeiros anos do século XXI, em um amplo debate acerca da questão ambiental. Este debate também ocorre na geografia com a discussão dos conceitos de meio ambiente, ambiente, natureza e sua inter-relação com o conceito de espaço geográfico, produto das transformações humanas e sociais.

De acordo com a sociedade, seu grau de desenvolvimento e de seu período histórico, haverá diferentes modelos e conceitos referentes ao meio ambiente, natureza e diferenças naquilo que consideramos espaço geográfico, assim como haverá diferentes abordagens geográficas acerca da sociedade. É importante salientar que a compreensão de todos estes conceitos se faz necessário na medida em que a geografia busca aprofundar as discussões acerca das mudanças ambientais e sociais que estão ocorrendo.

As sociedades, enquanto construções sociais, éticas e econômicas, tiveram grandes mudanças ao longo dos anos. A sociedade moderna caracteriza-se por um elevado ritmo de transformação, onde o único aspecto que tem permanecido como uma preocupação central é o da valorização da informação. Efetivamente, ao longo do desenvolvimento da sociedade um dos seus aspectos estruturantes tem sido o do desenvolvimento e aperfeiçoamento das tecnologias de informação e comunicação. Hoje, em plena era da globalização, uma sociedade moderna e desenvolvida caracteriza-se pela sua capacidade de integrar e dinamizar circuitos de informação [2].

A sociedade também tem promovido grandes mudanças na natureza. Estas mudanças são fruto de características sociais e históricas de cada cidade, onde o espaço natural é o palco por excelência destas mudanças. O espaço reproduz a totalidade social, na medida em que essas transformações são determinadas por necessidade sociais, econômicas e políticas. Neste sentido, o espaço é considerado um meio de reprodução da sociedade onde ocorrerá as transformações de ordem ambiental e antrópica [3].  

É possível afirmar que a ciência geográfica teve, desde a sua criação e estabelecimento enquanto ciência moderna, uma preocupação em estudar as questões ambientais e sua relação com a sociedade. Por isso, não se pode falar em geografia e sociedade sem considerar a questão ambiental, espaço de reprodução social, em discussões deste gênero. Por isso, é possível afirmar que há uma relação muito próxima entre o ambiental e o que chamamos de espaço geográfico ou espaço transformado pelas relações antrópicas. Esta relação reflete a riqueza da dualidade e da multiplicidade das discussões que há no campo do conhecimento geográfico. 

Na dinâmica das relações sociedade-natureza, as questões ambientais têm a ver com a qualidade de vida das pessoas, implicando os direitos de cidadania nos âmbitos individual e coletivo. Para além das relações sociedade-natureza a que se considerar a sociedade como vasto campo de estudo e que por isso, a geografia não detém de todas as ferramentas para estudar a sociedade como um todo e em todos os seus aspectos. Cabendo a esta ciência entender sobre os aspectos e fatores que compõem a sociedade e sua dinâmica e a implicação destes fatores nas transformações que ocorrem no espaço geográfico. 

A Geografia, enquanto ciência que trata do espaço no contexto das relações sociedade-natureza, busca explicitar a realidade de vida das populações quanto à dimensão espacial dos fenômenos, no sentido de onde ocorrem, como ocorrem e por que ocorrem: não somente localiza os elementos físicos e humanos sobre a superfície terrestre, como analisa as dinâmicas inter-relacionais desses elementos em diversas escalas, conforme os objetivos de estudo (local, regional, nacional e mundial) e as razões das interações, sob enfoques de compreensão criteriosa dos determinantes da construção organizacional do espaço pelo homem [4].

É possível afirmar que a sociedade moderna se caracteriza por um elevado ritmo de transformação, intensificado ainda mais por meio dos processos de globalização, onde o único aspecto que tem permanecido como uma preocupação central é o da valorização da informação. A valorização da informação tem ocorrido principalmente por causa do desenvolvimento e aperfeiçoamento das tecnologias da informação e comunicação. As transformações pela qual a sociedade tem passado, principalmente por causa das tecnologias, tem se constituído em um vasto campo de estudo para a geografia, tendo até profissionais que tem estudado sobre uma geografia do ciberespaço. Em linhas gerais, atualmente uma sociedade considerada moderna e desenvolvida é caracterizada pela sua capacidade em integrar e dinamizar os espaços e circuitos de informação.

Neste sentido, a ciência geográfica se propõe a estudar a relação de interdependências da sociedade com o meio e a relação de ganho e perca entre homem-meio. Sabendo disso, não é possível que se estude os conceitos presentes na geografia sem compreender a sociedade e sua relação com a questão ambiental, pois esta é a razão de existir dos seres humanos.

Para discutir sobre as contribuições da geografia para os estudos sociais e analisar a inter-relação entre ambos se torna necessário falar um pouco sobre as correntes da geografia, principalmente as correntes de pensamento que influenciaram a geografia no Brasil. A primeira corrente a ser caracterizada é a Nova Geografia, comumente chamada de Teorética Quantitativa. Esta corrente do pensamento geográfico surgiu por volta da década de 1950, promovendo grandes mudanças na metodologia da geografia. Era baseada principalmente na necessidade de exatidão, em conceitos mais teóricos e baseados no raciocínio matemático e estatístico. Era considerada uma corrente que não trazia grandes contribuições para a abordagem de conceitos que pudessem entender e solucionar os problemas da sociedade, pois não incorporava questões sociais em seus estudos.

A escola francesa, encabeçada por grandes nomes da geografia, tais como:  Paul Vidal de La Blache, Yves Lacoste etc., foram primordiais para uma mudança de paradigma metodológico na geografia brasileira, onde a geografia assumiu um caráter crítico, surgindo assim a geografia critica. A ideia principal era romper com o caráter de neutralidade, típico da nova geografia, e dar a geografia a possibilidade de elaborar uma crítica fundamental à sociedade capitalista a partir de um caráter marxista, dando ênfase também ao engajamento político dos geógrafos tendo como objetivo a diminuição das diferenças socioeconômicas e regionais.

Mesmo apoiado sob uma égide marxista, cabe lembrar que a geografia critica também desenvolveu ao longo dos anos outras formas de analisar a sociedade e sua relação com o espaço. Neste sentido, a geografia tem se preocupado em analisar a sociedade considerando suas diferentes formações culturais e suas percepções sobre o espaço geográfico e as formas com que este é construído e modelado. Por se tratar de uma análise muitas vezes complexa a geografia tem se apoiado também em áreas como a Antropologia, a Sociologia, as Ciências Políticas e a Biologia.

O espaço geográfico e a sociedade

O espaço geográfico constitui “um sistema de objetos e um sistema de ações” que “é formado por um conjunto indissociável e também contraditório, de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente” [5].

A sociedade pode ser considerada um dos elementos centrais que compõem o espaço geográfico, pois sem as modificações antrópicas não haveria um espaço produto da dinâmica social e econômica. Para compreender o espaço atual é preciso saber que no começo era a natureza pura, formada por todos os objetos naturais que a compõem. Ao longo da história estes objetos foram sendo modificados ou substituídos por novos objetos fabricados, que demandavam um conhecimento técnico e uma infraestrutura voltada para a industrialização e a mecanização. Nota-se que este período representa um momento de grandes mudanças na sociedade, principalmente relacionado ao uso da natureza e as formas de trabalhos.

Neste sentido, é possível pensar em um espaço geográfico como resultado de um todo constituído de múltiplas partes onde a dimensão ambiental e antrópica se relacionam para gerar novos espaços sociais transformados. Isso demonstra que para a geografia estudar o espaço geográfico é primordial compreender os aspectos históricos da sociedade.

Não obstante, o espaço geográfico é dinâmico. Sua dinâmica é representada pelo movimento, o girar do disco. Este giro expressa a ideia: Um todo uno, múltiplo e complexo [5]. A partir das informações apresentadas na figura 1 é possível afirmar que o espaço geográfico seria o resultado da interação da paisagem, território, lugar e ambiente. A questão social, neste caso, tem o poder de influenciar e ser influenciada por estes quatro elementos.  Na evolução do conceito de espaço geográfico é observado o envolvimento crescente das atividades humanas, sobretudo nas quatro últimas décadas [6]. O homem, neste caso, parece constituir mais num fator do que em um elemento do espaço. Mendonça acredita que há uma relação de interdependência entre a sociedade e os componentes da natureza. Neste sentido, um não pode existir sem a presença do outro. Da mesma forma que o ambiente está intrínseco no conceito de espaço geográfico, as transformações antrópicas são primordiais para a evolução deste espaço.

Em relação ao conceito de natureza, trata-se de uma ideia pensada, ou seja, a natureza é pensada a partir das relações sociais [7]. A relação da natureza com o espaço é entendida por meio de uma estrutura de relações sob determinação do social; é a sociedade vista com sua expressão material visível. A partir dessas considerações iniciais pode-se inferir que a natureza, entendida como mundo natural, pode diferir conceitualmente de ambiente e meio ambiente. O homem nasce num ambiente natural, mas simultaneamente num ambiente sociocultural [7].

As diferentes correntes de pensamento que fundamentaram a geografia do século XX e nas primeiras duas décadas do século XXI, tiveram grande importância para o entendimento da evolução das relações sociais e a relação destas com a primeira natureza, culminando na formação do espaço geográfico. É de extrema importância que os conceitos de natureza e sociedade sejam considerados, enquanto partes de um todo, em qualquer análise conceitual que se faça do espaço geográfico, pois este é resultado da ação social sobre o ambiente no atual sistema capitalista.

Neste sentido, a geografia contribuiu ao longo dos anos com grandes discussões para o entendimento da formação da sociedade, das relações destas com o meio ambiente e das relações sociais no espaço transformado. Por se tratar de temas complexos e abrangentes, a geografia faz uso de diferentes conceitos e estudos elaborados por outras áreas do conhecimento, tais como: economia, sociologia, antropologia, biologia etc., para o estudo da sociedade. 

[1] MOREIRA, Ruy. A (geografia da) sociedade do trabalho. Terra Livre, v. 1, n. 40, p. 131-142, 2013.

[2]JULIÃO, Rui Pedro. Geografia, informação e sociedade. GEOINOVA-Revista do Departamento de Geografia e Planeamento Regional, p. 95-108, 1999.

[3]SANTOS, Milton. Sociedade e espaço: a formação social como teoria e como método. Boletim Paulista de geografia, n. 54, p. 81-100, 2017. Disponível em: < http://www.agb.org.br/publicacoes/index.php/boletim-paulista/article/view/1092/949>.

[4]CARNEIRO, Sônia Maria Marchiorato. A dimensão ambiental da educação geográfica. Educar em Revista, n. 19, p. 39-51, 2002.

[5]SUERTEGARAY, Dirce Maria Antunes. Geografia e interdisciplinaridade. Espaço geográfico: interface natureza e sociedade. Geosul, Florianópolis, v.18, n.35, p. 43-53, jan./jun. 2003

[6]MENDONÇA, Francisco. Geografia socioambiental. Terra Livre, v. 1, n. 16, p. 113-132, 2015.

[7] DULLEY, Richard Domingues. Noção de natureza, ambiente, meio ambiente, recursos ambientais e recursos naturais. Agric. São Paulo, São Paulo, v. 51, n. 2, p. 15-26, jul./dez. 2004

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