A saída da Mercedes-bens e o fracasso da indústria nacional

Na última quinta-feira (17) foi anunciada pelos meios de comunicação que a empresa Mercedes-Benz, marca alemã de automóveis pertencente ao grupo Daimler AG, deixará de produzir carros no Brasil. A notícia pegou muita gente de surpresa, principalmente os amantes da marca. Também deixou preocupado consumidores de algumas marcas importadas, tais como: Audi, BMW e Land Rover.

Fundada oficialmente em 7 de outubro de 1953, a Mercedes-Benz do Brasil foi uma das primeiras empresas a produzir caminhões em solo nacional. Destaca-se o modelo L-312, conhecido como Torpedo, apresentado em setembro de 1956, mesma data da inauguração da fábrica de São Bernardo do Campo (SP).

Além da Mercedes, outras empresas já deixaram de produzir no Brasil, tendo com exemplo a Sony e a empresa Nikon. Diante disso, será que a decisão tomada pela empresa Mercedes é simplesmente devido à baixa atividade econômica, poucos incentivos governamentais a marcas importadas no Brasil? É simplesmente decorrente da alta do dólar? Ou é tipicamente o resultado de fracasso industrial brasileiro cultivado nas últimas quatro décadas?

Diferentemente dos outros artigos, que possuem um rigor científico maior, cabe levantar algumas questões para discussão a respeito das possíveis causas do fechamento destas empresas, olhando mais especificamente para o caso da empresa Mercedes-Benz do Brasil.

Destaca-se que a discussão do fechamento de uma fábrica é sempre complexa, pois os fatores que levam ao fim de suas operações são vários, podendo incluir mau desempenho em vendas, dificuldades de inserção junto ao público, impostos elevados, entre outros. Neste artigo, o fechamento desta fábrica será analisado pela perspectiva de queda na produção industrial brasileira nos últimos anos e seus reflexos na produção industrial de veículos e peças.

Na figura abaixo é possível visualizar a participação dos produtos exportados pelo Brasil e seu percentual de participação na pauta de exportação no ano de 2006.

Participação dos setores na pauta exportadora brasileira no ano de 2006. Fonte: The Atlas of Economic Complexity (harvard.edu)

Em 2006 a indústria brasileira era muito mais diversificada do que atualmente. Neste período a produção de veículos e peças para veículos também era maior do que a observada em 2018. A produção e venda de peças e partes de motores de veículos respondia por quase 2% de tudo o que era exportado pelo Brasil. Neste mesmo período a exportação de soja representava pouco mais de 3,5%. Na figura abaixo é possível visualizar a distribuição da pauta exportadora do Brasil em 2018.

Participação dos setores na pauta exportadora brasileira no ano de 2018. Fonte: The Atlas of Economic Complexity (harvard.edu)

É possível perceber que a exportação de produtos agrícolas cresceu em volume e em importância na pauta de exportação brasileira, principalmente quando se refere a exportação de soja, açúcar, carne, entre outros. Em 2018 a Soja responde por cerca de 11,7% do valor total exportado. O setor referente a produção de veículos e autopeças teve uma redução considerável em 2018 se comparado ao ano de 2006. Agora a produção de partes de motores veiculares responde a somente 0,79% do valor exportado. Isso representa uma queda de mais de 40% na produção industrial neste setor.

A queda da produção de partes e componentes veiculares certamente foi resultado do fechamento de empresas nacionais e internacionais e diminuição das exportações de veículos resultando em mais desemprego e no aumento da importação de peças produzidas em outros países. O câmbio desfavorável do dólar e os efeitos da pandemia da covid-19 também contribuíram para a decisão de algumas fábricas fecharem aqui no Brasil.

O fechamento de fábricas estrangeiras e nacionais também expõem o massacre proporcionado pelas políticas neoliberais dos inúmeros governos que se sucederam deste a década de 1980. A diminuição da capacidade produtiva brasileira, aliada aos cortes de recursos financeiros nas áreas de Educação, ciência e tecnologia irá contribuir ainda mais para o aumento do desemprego e para a transformação do país em uma “grande colônia agrícola”.

Referências consultadas

Mercedes-Benz do Brasil (relatoweb.com.br)

The Atlas of Economic Complexity (harvard.edu)

Empresas estrangeiras abandonam o Brasil – SINTRACOM Londrina – Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e do Mobiliário de Londrina

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